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O Ateliê de Clínica Psicanalítica de Orientação Lacaniana é um espaço para a difusão e transmissão da psicanálise de orientação lacaniana. E se encontra inscrito no LABRASIVO* do Instituto Lacan.

O Ateliê de Clínica Psicanalítica da Orientação Lacaniana — do Instituto Lacan-BR — e a Linha de Pesquisa “O autismo, as psicoses e suas interfaces na psicanálise” do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do departamento de psicologia da UFPR ministrarão, de 24 de setembro a 29 de outubro de 2016, o curso de extensão: “O que o autismo pode nos ensinar?

O curso trabalhará os principais textos — desde a pré-psicopatologia até o DSM5 — da construção teórica concernente ao estudo da psicopatologia relativa ao autismo e proporá o debate em torno do diagnóstico, casos clínicos e fundamentos dessa psicopatologia, e culminará com uma apresentação da obra renascentista magistral de Robert Burton “A anatomia da melancolia”.

Serão projetados o filme A Céu Aberto, de Mariana Otero, e Outras Vozes, de Iván Ruiz, psicanalista e pai de autista, que propõe a questão: “Que significa falar? ”, que será abordada no encerramento do curso.

A Céu Aberto

O filme-documentário A Céu Aberto constitui-se em um retrato do Real em que poderemos acompanhar o dia a dia da vida institucional de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico.

No filme, entre outros, acompanhamos os personagens reais Alysson, que observa seu corpo com estranhamento; Evanne, que se sacode, gira e se balança até ficar tonta e cair; e Amina, que não consegue fazer com que as palavras saiam de sua boca.

A Céu Aberto (À Ciel Ouvert) — foi filmado em Courtil, uma instituição belga que acolhe 250 crianças e adolescentes que apresentam dificuldades psíquicas de vulto, com vários deles sofrem de autismo. Não se trata, contudo, de um filme sobre deficiência mental, nem sobre o autismo. Do projeto Mariana Otero, diretora do filme, diz que “quis passar algo da loucura, ela que traduz o mais essencial que existe do que chamamos ‘alteridade’”. Ainda que retratando crianças reais e seu sofrimento, A Céu Aberto é um filme sobre a diferença radical do Outro, e traz um olhar livre, criador, acima das eventuais e inerentes polêmicas.

A locação do filme é a fronteira franco-belga, onde há essa instituição que se dedica aos cuidados com crianças portadoras de problemas mentais e que se encontram em dificuldades de inserção social. Os profissionais e familiares buscam entender o enigma que cada um deles traz e propõem soluções que visam ajudá-los a viver melhor. Por meio dessas histórias, A céu aberto, mais que tudo, revela que a forma de ver o mundo é singular.

Entrevistada pela jornalista Catherine Vincent, do Jornal Le Monde, Mariana Otero disse que A Céu Aberto — assim como os seus longos precedentes A Lei do Colégio (1994), História de um segredo (2003), Entre as nossas mãos (2010), La Loi du collège (1994), Histoire d’un secret (2003), Entre nos mains (2010) — trata da complexidade humana, seja nos distúrbios mentais, seja nos demais campos.

Na falta de estrutura para fundar essas instituições na França, Courtil foi criado, há 30 anos, na proximidade da fronteira franco-belga, mas acolhe em maioria crianças francesas. Seu fundador foi Alexandre Stevens. Revelou-se um lugar ideal para a diretora realizar esse filme no qual “compreender alguma coisa da loucura”. Assim, decidiu instalar uma câmera no próprio corpo e filmou centenas de horas para posterior edição e corte. “Eu havia visto vários lugares que acolhem adultos. O olhar dirigido pelos residentes era benéfico, muito respeitoso, mas eu tinha a impressão que restávamos na margem de sua singularidade. Não encontrava a porta de entrada. Um dia, me falaram de Courtil. No início, eu não estava muito entusiasmada: trabalhar com crianças me afetava um pouco, e a psicanálise, para mim, se passava no divã… Mas, mesmo assim fui ver. Tive uma reunião com os responsáveis terapêuticos, e a primeira questão que lhes coloquei foi “Porque vocês, contrariamente a todos os outros lugares que visitei, nunca os chamam de “deficientes”? Me explicaram que para eles não se trata de deficientes, mas de crianças com estrutura singular, e que o trabalho deles era o de compreender esta estrutura. Contrariamente a nós, que temos uma língua comum, cada uma dessas crianças tem, de algum modo, um tipo de língua privada. Para ajudá-los a que avançassem na vida, nos era necessário por primeiro que compreendêssemos esta língua. Bem, isso era exatamente o que eu buscava. ”

Mariana Otero começou a observar essas crianças na primavera de 2011. “No início não entendia nada. Nem as crianças, nem o trabalho. Mas, pouco a pouco o invisível ia se tornando visível. Além dos comportamentos, passei a compreender a lógica dessas crianças, e o que os clínicos faziam com elas. A partir daí entendi que poderia iniciar o filme, convidando o espectador a percorrer o caminho que fiz. Com um budget de 693 mil euros (em parte financiados pela televisão franco-alemã). O filme demandou três anos de trabalho.

E o filme acabou por transformar a cineasta que o fez.  “Essas crianças me conduziram a questionar o que até então era evidente para mim (…) de certo modo, elas me fizeram renascer, me devolveram ao mundo. Se eu tivesse visto esse filme há dez anos, talvez eu tivesse ganho 10 anos na compreensão de meu filho, porque ver o mundo pelos olhos de outro é um dos mais belos presentes que podemos receber. ”

"A céu aberto" de Mariana Otero

Outras Vozes: Um olhar Diferente Sobre o Autismo

Roteiro e direção: Iván Ruiz e Sílvia Cortés Xarrié.

Outras vozes (Unes Altres Veus em catalão ou Otras Voces, em espanhol) é um documentário sobre o autismo a partir da experiência de nove pais e avós de crianças diagnosticadas com autismo; do testemunho de Albert, um jovem de 20 anos diagnosticado de Síndrome de Asperger; e a partir do olhar de diversos psicanalistas de toda a Europa.

Outras Vozes é um documentário que mostra o diálogo com o autismo a partir de outro olhar, do qual os mitos de que “a psicanálise culpabiliza os pais pelo autismo de seus filhos” e que “o tratamento se consistiria em deitar as crianças no divã” se desmancham; e se demonstra também a validade e eficácia da psicanálise para além da suposta evidência científica em que se fundamentam outros tratamentos. Tanto mais nos daremos conta do que se sucede, quanto mais dermos voz à subjetividade e nos afastarmos dos sistemas de avaliação que só trazem cifras.

Com testemunhos múltiplos, os familiares explicam como agiram frente às dificuldades que surgiram em sua paternidade, sobretudo a de dar um lugar singular a seus filhos, renunciando às perspectivas e ideais anteriores.

Albert, o protagonista, transmite sua vivência de radical estranhamento ao senso comum e, com seu testemunho, nos damos conta do que supõe para falar, uma experiência reconhecível a qualquer um e da qual habitualmente se desconhece a complexidade que encerra.

Os psicanalistas da Espanha, da França, Bélgica e Itália trazem um olhar e uma experiência do autismo a partir da psicanálise lacaniana, que faz prevalecer a singularidade na subjetividade de uns e outros. Também é protagonista o espectador, pois este documentário oferece a possibilidade de o escutar e reconhecer em Outras Vozes que falam de alguns elementos particulares (não generalizáveis) de maneira que possam estar e entender o mundo das pessoas que vivem e convivem com o autismo.

O tratamento narrativo de Outras Vozes

Um olhar diferente sobre o autismo detém a atenção. A atenção oscila entre entre as vozes e as imagens, num ritmo que cria espaço mais para escutar do que para sentir, e mais para olhar do que para ver. A forma dos testemunhos do protagonista dá toda a relevância às palavras. Para tanto, o filme respeita o ritmo interno, as pausas e as expressões dos discursos de Albert; além de assistir a um espaço simbólico, também lhe acompanhamos na viagem de descobrimento de Bruxelas, e visitamos com ele o Museu Tintín. Assim, nos incita a escutar e entrar no seu particular vínculo com o mundo. As passagens abordam uma tripla função: a narrativa, a visual e a de separadora de discurso. A mais utilizada é a referência sonora, na qual escutamos as vozes de diversas crianças que, intuímos, brincam numa residência; assim como também os sons, ruídos e fragmentos de músicas que surgem dos objetos que portam. A trilha sonora, composta especialmente para o documentário, envolve e define o estilo intimista reflexivo e artístico do documentário; pontua discretamente alguns momentos, ficando inserida na trama do texto.

Iván Ruiz é psicanalista, psicólogo e músico que, há anos, concentra sua investigação no autismo e na psicose na infância. É membro da Escola Lacaniana de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

Sílvia Cortés Xarrié é diretora, produtora e roteirista, explica coisas importantes de um modo belo e comprometido. Codiretora de Teidees, com o desejo de desenvolver projetos e documentários de temas que considera importantes.

"Otras Voces" de Iván Ruiz.